Por Pablo Hermano

O ser humano costuma viver como se tudo fosse durar para sempre. Corpo, dinheiro, status, imagem… tudo parece sólido e sem fim enquanto estamos no meio da corrida. Mas uma das poucas certezas que temos nessa vida é que o fim é certo e está cada dia mais próximo. Por isso eu curti muito ler “Preparação para a Morte” de Afonso Maria de Ligório. Ele fala da morte não para assustar. Ele fala do “sono eterno” para acordar.

Ligório viveu na Itália, durante o século XVIII. Foi advogado, deixou a carreira, virou padre, missionário, escritor e fundador da Congregação do Santíssimo Redentor. Mas o que me pega nele não é o currículo. É a lucidez. Ele enxergava a vida com a lente do fim. Ele entendia que olhar para a morte é valorizar a vida, é uma forma de sempre lembrar e priorizar o que realmente importa no pouco tempo que nos resta.

Ele diz assim: “Grande segredo da morte! Ela sabe mostrar-nos o que não enchergam os amantes do mundo. Perdem todo seu resplendor as mais invejadas fortunas, as maiores dignidades, os magníficos triunfos, quando contemplados desde o leito de morte. A ideia de certa falsa felicidade que nós nos havíamos forjado torna-se então desdém por nossa própria loucura.”

Sempre que nos imaginarmos nesse ponto final, o que parece grande diminui e o que é invisível começa a brilhar. Tudo o que hoje parece prioridade absoluta — conquistar o emprego dos sonhos, aparecer e ser seguido, ter razão na sua ideologia favorita — perde o sentido.

Ligório continua: “A negra sombra da morte cobre e obscurece até as dignidades régias. Agora as paixões apresentam-nos os bens do mundo muito diferentes do que são. Mas a morte os descobre, mostra-os qual são verdadeiramente: vaidade, miséria, fumaça...”

É isso! O que o mundo chama de sucesso, ele chama de fumaça. Passa rápido. Não se sustenta. Não acompanha ninguém. Não tem fim em si próprio.

Ele também fala da beleza, da imagem, da preocupação com a forma, das riquezas e das honras: “Oh Deus! De que servem, depois da morte, as riquezas, os domínios e reinos, quando não teremos mais que um caixão de madeira e uma mortalha que baste apenas para cobrir-nos o corpo? De que servem as honras, se só nós darão um fúnebre cortejo ou pomposos funerais, que em nada são aproveitados pela alma que se encontra perdida? De que vale a beleza do corpo se não restam senão vermes, podridão espantosa e, por fim, um pouco de pó infectado?” 

Esse tipo de reflexão pode parecer pesada ou sombria, mas ela é libertadora. Porque se tudo isso passa, então eu não preciso viver preso ao olhar das pessoas, à comparação, à ansiedade de vencer no jogo dos outros. Se tudo isso passa devo então focar no que é Eterno.

Ligório ainda diz que o único tempo de mudar é agora, enquanto a vida está acontecendo: “Não é tempo oportuno o da morte, senão o da vida. Apressemo-nos pois, a fazer o que, naquele momento terrível, já não poderemos fazer. Tudo passa e fenece num instante. Procuremos então, aquilo que nos sirva para conquistar a vida eterna.”

A hora de agir é agora. É agora que decidimos quem está no comando. É agora que escolhemos quem queremos ser.

No fim, lembrei um famoso versículo de Romanos que aponta para a verdade que não passa: “O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

A morte não é o fim. É o espelho que poucos tem coragem de encarar. É onde tudo o que é falso cai e somente o verdadeiro reflexo permanece.

Morra enquanto é tempo. Mas permaneça acordado e viva como se a morte estivesse sempre ao lado. Nunca se esqueça que existe alguém que morreu no seu lugar, venceu a morte e vive eternamente. Ele quer te livrar da morte e te dar a verdadeira vida, mas antes de tudo isso, mesmo em vida, você precisa morrer.

 

>> Quem é Pablo Hermano

Pablo Hermano é cristão desde 2003, tatuador desde 2004. Fundador do estúdio El Bando Tattoo e da marca Kontra, na qual ele traz influências dos quadrinhos, da estética punk e da contracultura do Reino de Deus.